1 de julho de 2011

João Gilberto: o mito que inventou a Bossa Nova

Fotos: divulgação

Meus queridos amigos leitores!

Hoje minha coluna é dedicada a esse gênio da música brasileira, a esse músico extraordinário, que em sua maneira de buscar sempre a perfeição, sem saber, sem notar, foi o criador de um estilo musical e bem brasileiro, que influenciaria toda uma geração de músicos, não só no Brasil, mas no mundo inteiro, tornando o nome de nosso país muito popular. Hoje, amigos leitores, eu vou dedicar esta coluna ao mestre do violão e da Bossa Nova, o grande e genial João Gilberto. João Gilberto Prado Pereira de Oliveira, nascido em Juazeiro, na Bahia, que, no dia 10 de junho passado, completou 80 anos de idade. Viva João e sua música!

Por duas vezes, João Gilberto desembarcou no Rio de Janeiro com jeito de quem queria ficar de vez na cidade maravilhosa. Na primeira vez, quis conhecer a cidade e nossa música. Na segunda vez que João veio ao Rio, ele fez a sua escolha, e sabe qual foi? Ficou com as duas, com a cidade e a nossa música. Entre a primeira visita e a segunda, ficou um espaço de seis anos, tempo suficiente para João Gilberto ficar recluso, como ele mesmo gosta de dizer e de sentir, e, finalmente, para se descobrir, descobrir a sua verdadeira música e sua legítima identidade.

Em 1951, João Gilberto veio de Salvador para substituir Jonas Silva como principal solista dos “Garotos da Lua”, um dos muitos grupos vocais que lutavam por um espaço no mercado musical carioca. A música estava em ebulição, e muitos grupos eram formados na época, com nítidas influências de grupos americanos. Mas quem fazia sucesso e se destacava naquela época eram grupos que faziam sucesso principalmente no carnaval carioca, ou então gravando baiões, boleros e versões de sucessos americanos. A substituição de Jonas, que tinha uma pequena extensão vocal, foi sugerida por um dos “Garotos”, o Alvinho, que tinha escutado João Gilberto cantando na Rádio Sociedade, em Salvador, e visto nele um cantor muito bom, tão bom quanto Lúcio Alves, o vozeirão da época, que estava fazendo o maior sucesso seguindo carreira solo.

Quando João Gilberto esteve no Rio de Janeiro pela primeira vez, ele acabou ficando pouco tempo. A maior parte desse tempo, João ficou morando de favor na casa de amigos. Um tio seu acabou arrumando um emprego de escriturário na Assembleia Legislativa, mas também não durou muito tempo: João foi demitido por falta de assiduidade. Com o grupo “Garotos da Lua” aconteceu a mesmíssima coisa, não demorou muito para que João fosse demitido, suas constantes faltas e atrasos sendo determinantes para isso.

Logo no início de agosto de 1952, João entraria em estúdio, gravando seu próprio compacto 78 rotações para a gravadora Copacabana, com “Quando Ela Sai” de um lado, e “Meia Luz” do outro. Tenho certeza que os mais jovens que estiverem lendo a minha coluna devem estar se perguntando: Do que ele está falando? Como assim? Uma de um lado, e outra música do outro? Pois bem, amigos, era assim mesmo que os discos eram tocados naquela época. Este colunista que vos escreve, por exemplo, não pegou os discos de 78 rotações, não. Passei a gostar e me apaixonar pela música quando os LPs já tinham 33 1/3 rotações.

Bem, mas na sua segunda vinda ao RJ, seis anos depois, já era um outro Rio, principalmente musicalmente. O presidente era JK, também chamado de “Presidente Bossa Nova”, um homem que, naquela época, já tinha a preocupação de modernizar o Brasil, e João pegou essa mudança cultural e foi ficando. Alguns de seus colegas já faziam sucesso, como João Donato, o finíssimo e elegante Johnny Alf, e Luiz Bonfá. E uma nova geração de universitários vinda da Zona Sul carioca estava fazendo uma música muito boa de se ouvir, com forte influência no Jazz e nas canções americanas. Tom Jobim e Vinícius de Moraes tornaram-se parceiros. Toda essa influência do Jazz e da música americana acabou levando o grande João Gilberto a fazer um novo tipo de samba. Ele ainda custou a se firmar profissionalmente, mas cada vez mais conhecido no meio musical, e tido como um gênio em sua maneira de tocar violão, João era chamado carinhosamente pelos amigos de “Meio maluco, mas muito musical”. E eles tinham razão. Esse seu jeito tão particular acabou revelando ao Brasil um músico extraordinário. Para quem conhece a trajetória de sucesso e a maravilhosa música que João faz, deve custar a acreditar que, por muito tempo, ele morou de favores e tocava com violões emprestados por amigos, e, diz a lenda, ainda recebia ajuda financeira deles, mesmo tendo o temperamento difícil e totalmente imprevisível, o mesmo temperamento que o fez, por exemplo, quebrar o violão na cabeça do amigo Tito Madi.

João sempre teve temperamento difícil

João sempre teve temperamento difícil

Uma batida diferente
Tudo estava melhorando na vida de João, mas um dos trabalhos que mais lhe trouxeram prestígio e visibilidade foi o de violonista do maestro Tom Jobim, no disco conceitual que este gravaria, de canções suas em parceria com Vinícius de Moraes, interpretadas por Elizeth Cardoso. Foi um disco definitivo na carreira de João Gilberto. Nas faixas mais lentas do disco, João se limitou a ler as cifras do arranjo e nada acrescentar de seu ali, apenas executando o que o Tom havia escrito nas partituras. Mas nas mais rápidas, em “Chega de Saudade” e “Outra Vez”, as cifras de Jobim foram muito bem executadas por uma base rítmica totalmente diferente e cheias de inovações. Dali saiu a famosa chamada “batida diferente”, que faria João e seu violão começarem, enfim, a se tornarem famosos. Meses depois, com o que se viu ali naquele disco, acabou dando ideia para que ele gravasse o seu próprio disco, com “Chega de Saudade” de um lado do compacto, e do outro, o também famoso “Bim Bom”. O que foi feito nesse disco revelou um João Gilberto para o mundo, e a revelação acabou entrando definitivamente para a história do mundo da música.

João e Tom Jobim

João e Tom Jobim

A Bossa ganhou as ondas do rádio e ultrapassou as fronteiras do país com seu sotaque universal, que tornava nosso samba mais palatável ao gosto estrangeiro. A partir daí, a carreira de João subiu acelerada como um foguete. Seu reconhecimento internacional foi instantâneo e tão vigoroso quanto as críticas conservadoras de nacionalistas empedernidos, que acusavam os bossa-novistas de serem americanizados. No ano de 1960, João lançou o álbum “O Amor, o Sorriso e a Flor”, com a atrevida “Samba de Uma Nota Só” (Tom Jobim e Newton Mendonça). Em 1961, o terceiro LP, que levava seu nome no título, repetindo a fórmula: “O Barquinho”, dos jovens bossa-novistas Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, e clássicos como “Samba da Minha Terra” e “Saudade da Bahia”, de Caymmi, que ele cantaria ao longo de toda a carreira, apurando a cada apresentação o dedilhado do violão e a colocação da voz. A Capitol lançou nos Estados Unidos ,no mesmo ano, um álbum do cantor baiano – “Brazil’s Brilliant João Gilberto” -, que lhe abriria as portas do mercado americano.

Como consequência, no ano seguinte realizou-se, em Nova York, o Bossa Nova Festival, no qual João dividiu o palco do Carnegie Hall com o pianista e parceiro Tom Jobim e o poeta Vinícius de Moraes, além do músico Milton Banana e do vocal Os Cariocas, resultando do show o álbum “Bossa Nova at Carnegie Hall”. O sucesso foi tanto que João ficou por lá mesmo, se apresentando sem parar. Ainda em 1962, relançou lá o LP João Gilberto, com o título “Boss of the Bossa Nova”, pelo selo Atlantic, que, no ano seguinte, lançaria mais um disco (“The Warm World of João Gilberto”), com os sucessos que não constavam do primeiro.

Veja mais um momento marcante de João Gliberto, cantando com sua filha Bebel: http://youtu.be/gzxVBXCP1jg

O som cool de João atraiu a atenção do pessoal do Jazz, e em 1963 ele foi convidado a gravar um disco com Stan Getz (“Getz/Gilberto”), no qual aparece a versão do sucesso de Tom e Vinícius, “The Girl from Ipanema”, na voz de Astrud Gilberto, e mais clássicos do cancioneiro nacional e sucessos já consagrados da Bossa, como “Doralice”, “Pra Machucar Meu Coração”, “Desafinado”, “Corcovado”, “Só Danço Samba”, “O Grande Amor” e “Vivo Sonhando”. O disco alcançou o 2º lugar na parada da revista Billboard, onde ficou por quase dois anos. Em 1965, o trabalho lhe valeu o Grammy de melhor álbum. O resto é história que se repete.

A Bossa Nova sucumbiu aos modismos do mercado fonográfico, intérpretes e compositores se bandearam para novas searas, mas João Gilberto permaneceu fiel às suas convicções estético-musicais. O gênio baiano chega aos 80 se apresentando cada vez menos e cada vez melhor.

Aqui, amigos, mais um momento espetacular de dois dos maiores músicos do mundo. Os brasileiros João Gilberto e Tom Jobim: http://youtu.be/n81JA6xSbcs

Não deixe de conferir a discografia desse gênio da música: http://joaogilberto.org/disco.htm

Espero que vocês tenham gostado desta matéria sobre o homem e o mito que reinventou a forma de tocar violão, com uma batida inconfundível e extraordinária. O grande João Gilberto Prado Pereira de Oliveira. O nosso querido João Gilberto.

Beijos, abraços, e até a próxima!

Beto Saroldi

Beto Saroldi - Rio de Janeiro/RJ

Saxofonista, compositor e produtor musical, começou sua carreira em 1975 com Eduardo Dusek e desde cedo foi muito requisitado nos estúdios, gravando com Fafá de Belém, Zizi Possi, Capital Inicial, Barão Vermelho, Gilberto Gil, Toquinho, Lulu Santos e muitos outros astros da MPB. Fez parceria com Erasmo e Roberto Carlos, tocou com Wagner Tiso & Lô Borges e ainda pertenceu a "UmBandaUm" de Gilberto Gil, fazendo turnês pelo Brasil, EUA, Europa, América Central e Oriente Médio.

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