ALÉM DO SOL E DO VENTO
Segundo o relatório “Energy Transition Investment Trends”, divulgado pela Bloomberg NEF (BNEF), os investimentos globais na transição energética em 2025 foram de US$ 2,3 trilhões, considerados um recorde pois representaram 8% a mais que em 2024. Desse total, US$ 893 bilhões foram aplicados no transporte eletrificado, seguido de US$ 690 bilhões nas energias renováveis e por US$ 483 bilhões investidos nas redes elétricas. Comparados com os montantes aplicados em combustíveis fósseis, esses investimentos em energia “limpa” superaram aqueles, pelo segundo ano consecutivo, em US$ 9 bilhões. Mesmo assim, as emissões de gases de efeito estufa (GEE) continuam batendo recordes e a temperatura aumentando.
Conforme dados da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) a matriz elétrica brasileira nesse 1ª trimestre de 2026 expandiu 2,42 GW na potência instalada, resultante da entrada em operação comercial de 56 usinas. A fonte solar teve uma maior participação nesse total pois suas 50 usinas responderam por quase 90% dessa nova capacidade. Em seguida vem 59 MW (1 usina) de eólicas, 46 MW (2 usinas) de termelétricas e 26 MW (3 usinas) de PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas).
Por outro lado, o sistema elétrico brasileiro vem apresentando vários desafios como as crises hídricas, excesso de geração em determinados períodos e picos de demanda, além da vulnerabilidade climática. Precisamos entender que transição energética não significa apenas a substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis solares e eólicas. Precisamos ir mais além, ter como objetivo um sistema mais resiliente, descentralizado e justo.
Nesse cenário, a bioenergia se apresenta como um aliado estratégico para o fortalecimento do sistema elétrico brasileiro oferecendo complementaridade, estabilidade e resiliência local. Complementaridade, porque as fontes solar e eólica são dependentes do clima, mas a bioenergia pode ser acionada de forma previsível e contínua. Estabilidade, porque as usinas de biogás e biomassa podem produzir energia firme. Resiliência local, porque aqueles que aproveitam os resíduos urbanos na geração de energia reduzem a dependência da transmissão e ficam menos vulneráveis a interrupções de grande porte. A integração entre bioenergia e geração distribuída pode reduzir emissões, gerar energia firme e previsível, criar empregos, fortalecer a economia circular e permitir que comunidades passem a ser protagonistas
Por bioenergia entende-se aquela produzida a partir de recursos biológicos, como plantas, óleos vegetais, resíduos orgânicos, algas e até mesmo resíduos sólidos urbanos. Por geração distribuída (GD) entende-se um modelo em que a energia é produzida pelo próprio consumidor, em pequenas e médias unidades, tais como painéis solares em telhados, propriedades rurais, estacionamentos, pequenas centrais hidrelétricas e mini turbinas eólicas. A bioenergia pode muito bem ser utilizada na GD, através dos biodigestores nas fazendas, usinas de biogás em aterros sanitários e plantas de biomassa em polos agroindustriais. A integração entre essas duas formas de produção de energia descentralizada apresenta várias vantagens: redução de perdas na transmissão, aumento da segurança energética e viabilidade de comunidades. Dessa forma, empresas e municípios passem a ser protagonistas na geração de energia e não só consumidores.
Podemos apontar outras vantagens da integração da bioenergia com a geração distribuída como o surgimento de novos modelos de negócio, a exemplo de consórcios de biogás em cooperativas agrícola ou usinas de biomassa em polos industriais. As universidades e institutos de ensino vão se desenvolver, porque precisam formar profissionais em engenharia elétrica aplicada à GD e gestão de resíduos energéticos. Nas fazendas, os biodigestores podem transformar dejetos animais em energia elétrica e biometano, vindo reduzir custos e gerar receias extras. As comunidades poderão se tornar autossuficientes em energia e as prefeituras podem resolver problemas com a gestão do lixo e o fornecimento energético para algumas de suas unidades.
O Brasil tem todas as condições para liderar essa revolução e já conta com instrumentos importantes, que não só estimulam essa produção, mas também criam mecanismos para que essa estratégia seja incorporada ao sistema elétrico brasileiro, ainda muito centralizado. Esses instrumentos são: a) RenovaBio – Política Nacional de Biocombustíveis, para garantir a previsibilidade e as metas de descarbonização; b) Lei do Combustível do Futuro, que amplia o uso do biodiesel, etanol, biometano e SAF; c) Planares – Plano Nacional de Resíduos Sólidos, para incentivar soluções energéticas a partir do lixo urbano.; d) Política Nacional de Transição Energética, um plano estratégico para integrar fontes renováveis, bioenergia e hidrogênio verde.
Em Campos Novos (SC), foi inaugurada a primeira usina de biometano da América Latina para produzir o energético a partir de dejetos suínos. A planta tem capacidade de produzir 16 mil m3/dia de biometano, 23 mil m3/dia de biogás e 12 toneladas/dia de CO2 de grau alimentício, na qual foram investidos R$ 65 milhões. O projeto se destaca porque já nasceu com o certificado da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis). Essa certificação já permite que essa energia possa participar do mercado regulado, assim como na geração de ativos ambientais, a exemplo dos CBios e dos créditos de carbono, provas da sua viabilidade econômica.
Na realidade é um avanço relevante porque sinaliza uma mudança que vai além de um empreendimento em si, uma demonstração concreta da forma como o Brasil está lidando com o agronegócio, integrando energia e resíduos. Globalmente, esse modelo vem ganhando forço e, para nós, é ainda mais estratégico haja vista que geramos muitos resíduos orgânicos e precisamos explorar ainda mais o biogás e o biometano.
A integração de diversos setores da produção agropecuária com os insumos industrias e com a geração de energia é uma demonstração que eles podem ser mais eficientes para a redução das emissões, melhor aproveitamento dos recursos disponíveis e na criação de novas cadeias de valor. Esses resíduos são de difícil reciclagem e precisam ter uma destinação ambientalmente adequada e economicamente sustentável.
ALÉM DO SOL E DO VENTO
Por Geoberto Espírito Santo
GES Consultoria, Engenharia e Serviços




